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E AGORA ??

O MUNDO VISTO PELOS MEUS OLHOS

A FILHA DO MOLEIRO

por ARMANDO CORREIA, em 21.07.14

A vida tem destas coisas que mais parecem tiradas de um livro de histórias.

Quis o destino que este fim-de-semana tenha decidido passar pela estrada que deambula por entre as aldeias até á cidade.

Sai pois da aldeia onde fui criado e de onde sai há 24 anos e dirigi-me a Coimbra mas desta vez por estradas secundárias, foi numa dessas aldeias que ao virar da esquina me deparei com os restos mortais de um velho moinho e a minha memória retrocedeu 26 anos atrás, de uma maneira quase arrepiante.

Durante a minha juventude fui um viajante constante muito á custa do meu hobbie da altura que era nada mais nada menos do que fazer o som das festas populares quer com conjuntos, com ranchos folclóricos etc.

Nessa altura passava dias seguidos nas mais várias aldeias, numa altura em que as miúdas ainda iam aos bailes acompanhadas pelos pais e onde nós os " tipos do som " éramos os maiores.

E foi precisamente uma dessas festas que eu conheci a " filha do moleiro ", era gira a miúda e atrevi-me a pedir-lhe para dançar, logo ali se levantou um burburinho que durou durante toda a festa, quem se atreveria a meter-se com a " filha do moleiro " ????

Lembro-me que a festa foi maravilhosa e que tudo correu ás mil maravilhas menos a parte em que o moleiro ia beber uns " canecos " ao recinto e me olhava com olhos fulminantes..... havia até quem dissesse que corria o risco de levar um tiro de caçadeira.....

Ali parado na beira da estrada a olhar o velho moinho esta história percorreu o meu pensamento.....

Lembro-me até que ainda fui várias vezes ter com ela mais tarde montado na bela da " pasteleira " bicicleta estimada com roda 26 na frente e 28 atrás para andar mais nas descidas....

Ainda me lembrei também que no ano seguinte voltei ao arraial e os meus amigos me diziam que a " filha do moleiro " ia lá estar...

O tempo passou já nem me lembro do nome dela..... e foi até com alguma tristeza que vi o moinho já decadente e morto, abandonado.

segui o meu caminho num misto de saudade daqueles tempos e com um sorriso de alegria por me lembrar desse episódio, provávelmente já existirão " netos do moleiro " e talvez o moleiro já nem seja vivo...

A verdade é que a " filha do moleiro " foi uma daquelas pessoas que passam nas nossas vidas temporáriamente e não voltam mais e que muito provávelmente nem conheceria se a visse.

O velho moinho esse não conta já histórias de outros tempos, do velho e rico moleiro que por cada saco de farinha que moia do vizinho ficava sempre com um " alqueire " para si...